17.11.09
Farol vermelho. O carro é chique. Deve ter grana. Penso em pedir. Mas os que têm grana são os piores. Só pobre sabe o que é fome. Será que rico nunca teve fome? Nem quando faz regime? Despenso. Mas eu tô sempre pedindo. Implorando. E nada. Eu-podia-estar-matando. Eu-podia-estar-roubando. Eu podia dizer outras coisas. E ouvir outras coisas além de “não”, “não tenho”, “hoje não”, “tô sem trocado”. Ou a cabeça deles balançando que não, seguida daquela cara de quem tenta mostrar que é mais miserável que eu. Mas o pior de tudo é o barulho do vidro automático fechando na sua cara. Sem uma palavra. E com todas as palavras que eu sei que eles falam por dentro. Acham que sou vagabundo. Que nunca quis estudar. Que tive mãe, pai, casa, família, essas coisas de gente comum. E que tenho mais é que me ferrar mesmo. Pô, mas esse parece diferente. Não custa tentar. O estômago gritando: “vai!”. Tem jeito de religioso. Senhor, desculpe incomo...
10.11.09
“Perto do coração selvagem
Grande sertão: veredas
Uma faca só lâmina
O livro das ignorãças
Vaca de nariz sutil
Um circo de rins e fígado
Quem não sabe mais quem é, o que é e onde está precisa se mexer
Objeto selvagem
Eles eram muitos cavalos
Fátima fez os pés para mostrar na choperia
Vastas emoções e pensamentos imperfeitos
Vem buscar-me que eu ainda sou teu
O filho eterno
O tempo e o vento
A educação pela pedra
A teus pés
Distraídos venceremos
Roda viva
Angu de sangue
Doce de sal
Infinito particular
Cronicamente inviável
Tudos
Pérolas aos poucos
Um copo de cólera
Cem anos de solidão
Malaguetas, perus e bacanaço
As intermitências da morte
Razão e sensibilidade
A orelha de Van Gogh
O caminho para a distância
Claro enigma
A insustentável leveza do ser
Antes do baile verde
Sombras de reis barbudos
O pirotécnico Zacarias
A cinza do purgatório
O encontro marcado
Fragmentos de um discurso amoroso
Mundo enigma
Na vertigem do dia
Angústia
Livro do desassossego
Tu, só tu, puro amor
Dardará
Viaje na viagem”
4.11.09
Órfão
AplauS.O.S.
A incrível arte que eu não tenho de cantar junto uma canção que está tocando no rádio
Debatendo a cara pra bater
Amuleto de mim
A neurolingüística da casa de papelão
Como é que chama isso aí sem nome?
Receita para um natal feliz
O prelúdio do dilúvio
Escola de Samba Unidos da Desunião
Aeroporcos
A etérea esterilidade do meu desejo eterno e efêmero
Carrinho de batida
Depressão geográfica
Japonês-Hilux
Sua saudade não vale um cartão da Telemar
O manto úmido da saudade
Banheiros do Ó
1° Encontro Internacional de Desencontros
Teledoença
Onde se lê
Sem miniconto(s)
Zuz
Academia da Berlinda*
Sim para não
Malabares no ar
Olimpíadas do fracasso
Guarde você pra mim
Bora pra Borá
Tato tem memória
Empregadice
A Bienal hoje é um tobogã de emoções
Quando a cama quebrou
À Judas
Ex-comunhão
Os suicidas hereditários
O mundinho pequeníssimo do sr. Ínfimo
Há coitados açoitados no trem
De onde a gente parou
En(trave)
A liberdade que eu tenho pra sonhar
Vagantes
Palavras cruzadas (correção)
Morte deliveri
27.10.09
Ué, num quiseram pagá pra ver?
Acham que pode vir aqui com o caverão urubuzar nóis, tocar o terror, dar trocentos pipoco e sair no sapatinho?
Querer fudê nossa guerra de poder?
Perdeu playboy!
Quem manda no morro é nóis. E o sistema aqui é bruto. O presunto aí no carrinho é só um aperitivo pra sair nos jornais. Um patê pra forrá o estômago de voceis.
Cês num tava feliz com as olimpíada? O Brasil num tinha virado país de primeiro mundo? Taí. Mais um motivo pra comemorá. E pros gringo vê como nóis é evoluído. Como a gente aterroriza no esporte. Ninguém ganha de nóis em arremesso de bala perdida, granada a distância ou tiro ao helicóptero.
E de onde veio esse aí tem muito mais. É só continuar a zicá a santa paz da nossa comunidade e querê desbaratiná a facção.
A gente também sabe fazê promoção. Na próxima, matou um, leva três. Nóis vai liquidá geral. E ó, nem precisa botá a mão no bolso. A gente entrega a morte em casa. Até porque, meu irmão, cortesia é oferta da casa.
20.10.09
Malabares no ar III
Antes sonhávamos com desejos maiores. Tentando não nos contentar com o pouco nunca muito que nos dão. Dão? Não. Eles nunca dão nada. No máximo, emprestam. Só pra sentirmos o gostinho. Provar. Ver como é bom. E aí, tiram. Tiram? Nada. Arrancam. Como se não merecêssemos. Ou merecendo não pudéssemos. Ou pudendo não nos dispusessem. E ainda cobram juros explosivos por esses parcos segundos de felicidade emprestada que mal curam uma vida inteira de desgraça parcelada em nada suaves prestações. Sim, sabemos que a felicidade é cara. Que nunca vem de graça. E que a desgraça de não tê-la é muita. Mas precisava custar tantas lágrimas? Acabar com princípios? Roxear manchas? Cataratar sangue? Estuprar a alma? É, acreditávamos que não. Mas também nos extirparam todas as crenças. Até a dos desejos menores. Como, por exemplo, o de querer continuar sobrevivendo.
12.10.09
“E hoje resolvi sentar / numa das pontas da lua minguante
sente na outra / por favor.”
Hojerizah
Pegue o seu desejo e jogue-o no ar.
Não, esse, não.
Não é qualquer desejo.
Você já deveria saber...
É aquele que foi/é eternamente seu.
Que nem precisa pensar qual é.
Que o domina.
Que é mais forte que você.
Isso.
Este!
Agora, outro.
Tão importante quanto.
Por fim, o terceiro.
Não menos fundamental.
Parabéns!
Bela escolha.
Talvez não seja digno deles.
O homem e suas ambições...
Mas vamos lá.
Estou aqui pra ajudá-lo.
Mantenha-os sempre no alto.
Mostre que está à altura deles.
Que quer e pode alcançá-los.
E, acima de tudo, merecê-los.
Cadencie o movimento dos três cuidadosamente.
Atentando para a volatilidade tão inquietantemente intrínseca aos desejos.
Para o dinamismo peculiar de cada um.
Faça de tudo pra que eles não caiam.
Nunca!
Isso, assim.
Com cuidado.
Prestando atenção nos três ao mesmo tempo.
Tá indo bem.
Quase conseguindo.
É só não deixar cair.
Agora, basta você...
Quê?
Não!
Um quarto, não!
Eu disse NÃO!!!
5.10.09
Resolvi abrir a janela de novo.
A cartela vazia de calmante dormindo feliz no chão por não ter precisado esperar dar meia-noite.
Pílulas do dia seguinte tomadas quase todos os dias.
Ontem estava melhor. Surgiu até uma ligeira vontade de falar com alguém.
Abortos a céu aberto.
Quando a cama quebrou, eu e você não tínhamos nos despedaçado ainda.
Cursinhos que nunca a colocaram em curso.
A mão que apóia a cabeça sente mais o peso do desânimo do que da cabeça.
Noites sumidas com gente desencontrada.
Esta caixinha não é de natal. Ela é minha vontade de transformá-la no seu caixão.
E o grande ápice: conseguir transformar uma droga de vida numa vida que é só droga.
Cumprimentou a mão que estendi como quem pega em cocô.
E gente da nossa casta não gosta de ver pessoas dessa casca.
Encostas foram feitas para serem desencostadas, e se casas são soterradas, a falha é desses encostados que não procuram lugar decente pra viver.
Cada um tem o para-raio que merece.
2.10.09
(a realidade goleando a ficção)
“A vida tá fácil; o difícil é o dia a dia.”
29.9.09
Os modelos, espalhados pela passarela com suas caras e bocas, causaram um verdadeiro frisson.
Enquanto os flashes das câmeras pipocavam abrilhantando ainda mais o espetáculo, jornalistas, fotógrafos, gente do mundinho e curiosos se acotovelavam freneticamente na 1ª fila pra ver esse desfile que foi um dos mais impactantes da temporada, e certamente colocou o Brasil em outro patamar.
As peças, cheias de recortes assimétricos, resgataram a rebeldia dos anos 70, prevalecendo os tons de vermelho berrante, que voltou com tudo. Agora, a ordem, ou melhor, o comando é vermelho.
Como tendência, vimos que a delicadeza e os padrões justinhos ficaram totalmente démodé, sobressaindo o estilo agressivo de cortes soltos, muitas transparências e pouca roupa.
Aliás, haja jornal pra cobrir os corpos despedaçados desses descamisados.
21.9.09
Media sempre as palavras, mas mesmo as pequenas não cabiam em si.