31.10.14

 
Testamento


Ao mendigo da esquina que não vi mais gordo, porque nunca esteve gordo, e que nunca sequer vi de verdade, deixo esta vista farta.

Ao cego que me cegava ao comer com extrema felicidade tudo o que não via pela frente, deixo minha saciedade cansada de querer ver o invisível.

Ao ascensorista de costas curvadas e desejos deprimidos depois de tantos altos e baixos, deixo minha plena planície e esperanças rastejantes.

Ao padeiro e seus eternos sonhos da noite passada e requentada, deixo pesadelos salgados nas lágrimas de sonos insones.

Ao coveiro que polvilha a pá de cal sobre os nossos mortos como quem oregana uma pizza, deixo de gorjeta a morte e seu amargo retrogosto.

Ao motorista que insiste em me colocar todos os dias no mesmo coletivo, deixo minha individualidade louca de ser apenas um sósia só de mim.

E ao filho do meu pai, que nunca pude chamar de irmão, deixo este boletim de ocorrência por ameaça de morte e a certeza de que, se eu for, que ele herde de mim esta única herança.

30.10.14

 
Rosa dos ventos 


Cata-vento
cospe tornado
arrota brisa
peida purpurina
e asma o que ama.



6.9.14

 
Tudo daqui


Meia
tênis
cueca
calça
cinto
camiseta
blusa
jaqueta
ruas 3100, 3000, 2850, 2500, 1400 e 1100
terceira, quarta, quintas avenidas e quintos dos infernos
decepções enumeradas
números decepcionantes
correrias
atrasos
senhas
sanhas
sonhos
pesadelos
ódios
sentimentos
decepções
ruas 3100, 3000, 2850, 2500, 1400 e 1100 percorridas e recorrentes
tênis estropiado de tanto andar
andar tanto de estropício
rezas à beira-mar
trevas à beira do mal
almoços quase jantas
jantas de antas
horários impróprios
desapropriação do tempo
ontens sem amanhãs
rotinas rotas
rotas tortas
esperanças
desesperos em estado bruto
melhorias pioradas e liquidificadas
apoios
indiferenças
viadutos, redutos, reduções de mim mesmo
eu sem mim
ruas 3100, 3000, 2850, 2500, 1400 e 1100 recorridas do começo ao fim e de meios sem fins
caminhos perdidos
perdas encaminhadas
diárias de hotel
noites em claro
clarividências escuras
gastos fartos
fatos tortos
família desfamiliarizada
roupas sujas
crenças imundas
e mundos mundanos.
Levo tudo daqui.
Menos o que mais queria:
a vida.

 
MINICONTO
OITO ANOS


Órfão
Como cheguei até aqui
AplauS.O.S.
A incrível arte que eu não tenho de cantar junto uma canção que está tocando no rádio
Cada um tem seu par
A venda
Derrota
Debatendo a cara pra bater
Amuleto de mim
A neurolingüística da casa de papelão
Ex-tamira
Rio
Brasília
Feriados
O silêncio é a gente mesmo demais
Cemitério
Networking
Como é que chama isso aí sem nome?
Receita para um natal feliz
Ano novo, vida velha
Sérgio Sampaio
Sérgio Sampaio II
O prelúdio do dilúvio
Carência
Eu mereço coisa melhor
Três Carnavais
I - Escola de Samba Unidos da Desunião
II – Bandeira branca
III – É carnaval em Salvador
O dia em que o Sol sair de novo
Soberba
Você acha que consegue me cansar?
Aeroporcos
─ Que qui cê tem de goró aí? Porque eu não preciso beber pra ficar alegre
“Desvio para o vermelho”
“A minha casa é uma caixa de papelão ao relento”
Roteiro turístico
Bem imóvel
Fudeu!
A etérea esterilidade do meu desejo eterno e efêmero
Carrinho de batida
Casamento II
Casamento I
Casamento 0
Rádio-relógio
Depressão geográfica
PARE DE SOFRER!
Presença de espírito
A queda
Japonês-Hilux
Aeroporcos II
Ônibus
Serpentinas em luto
Equação
A volta da Manu
A volta (ou A vida não é Algodoal)
Sua saudade não vale um cartão da Telemar
O copo
"Vim buscar tudo o que é meu"
O manto úmido da saudade
Recado
Cartão de crédito
“Cai no areal e na hora adversa”
“Doce de sal”
Amostra da mostra
Janela
Finados
Banheiros do Ó
Olhos de ver
Futuro
Cela de menor
Destaque do mês
Batida
A gente não tem natal
Nós somos os seus piores pesadelos
Vamos matar logo esta saudade
Marca
Azulejos
PF & Cia.
Comida
Oração
Normalmente
Horizonte
Horário de verão
O segredo
O segredo II
São São Paulos
Achei que você teve certeza de que tivesse me visto
Contramão
Dengue
1° Encontro Internacional de Desencontros
Casais
Horóscopo
MATA!
Teledoença
Onde se lê
TÁ ASSUSTADO?
Sem miniconto(s)
Não converso com estranhos
Vasos comunicantes
O ganhador
Nascimento
Zuz
Academia da Berlinda*
Sim para não
Operação Solta e Agarra
Batmãe
Essa onda diet que emagrece a vida
Malabares no ar
Olimpíadas do fracasso
Supersuperficial
Encontro
Minicontos fraseados
Guarde você pra mim
Bora pra Borá
Tato tem memória
Ingressos e críticas
O dia em que São Paulo parou
Postinor
Telemarketing
Empregadice
Minicontos fraseados II
Deu tudo certo até começar a dar errado
A gente não se bate muito
A Bienal hoje é um tobogã de emoções
Caixinha de natal
Quando a cama quebrou
Presente de natal
Xadrez de olhar
O que você vai fazer da sua vida agora?
Miséria
À Judas
Melhora
O pedido
O pedido II
11 Pontos de alagamento
O X da xenofobia
O complexo caminho das lágrimas
Ex-comunhão
Os suicidas hereditários
O mundinho pequeníssimo do sr. Ínfimo
Aumento
Inverdade
LAVAMOS
Quer sair?
Há coitados açoitados no trem
Pandemia
Elevador
Nossa igreja está crescendo
Retiro espiritual
Açougueiro de luxo
A testemunha
O cheiro do seu cabelo
De onde a gente parou
En(trave)
Atos secretos
A liberdade que eu tenho pra sonhar
Essential things of Brazil
Vagantes
O povinho do pacote
Lembranças escurecidas pelo tempo
Palavras cruzadas (correção)
O medidor de palavras
Desfile
Minicontos fraseados III
Malabares no ar II
Malabares no ar III
Morte deliveri
Minicontos intitulados
Na falta de um bom título
Durante o meio segundo que você leva pra desviar o olhar
Hérnia de disco
A edícula do inferno
"Abacaxizinho de Natal"
Vaca homeopática
11 Pontos de alagamento II
Essa doença
Essa doença II
20 anos depois
A construção da destruição
"Mendigos serão sempre necessários"*
São Paulo Féchiom Uíqui
Absurdamente feliz!!!!!!
Prometeu acorrentado
Noite quente pra sonhos fumegantes
Figurantes principais
(Só)lilóquio
A vida nova que você me deu
“A tua santa tá querendo te enlouquecer"
FILOSOFIA DA EMPRESA
Queria o quê?
O desfragmentador
Ressonâncias magnéticas e eletrônicas
Não há mais paisagens no fundo do mar
Não é por aí
Só ao redor de si
“Vanessa, tire o véu da inocência”*
Supra-sumo
A falsa tranquilidade da chama da vela enquanto o Vento não vem
Defesa imundológica
So(i)sLaio
A cor do derramamento
Val-de-Cans
Vim buscar tudo o que é meu II
Fio narrativo
O abraço do taxidermista
Hidrografia do corpo
Tópy Méloddy
Bíblia
O colecionador
Banquete na Nova Higienópolis
ESTREIA OFICIAL DO MINICONTO - LADO B
Megaplégica
Cela de menor II
Agora eu me sinto assim
Vendem-se (no estado em que se encontram*)
Prometo ser fiel
Finados
A sombra da minha sombra
Leviatã pra viagem
“Dos seios de ‘Juliana’ ainda jorram leite”*
Parada de Lucas
MakLeys Cabeleireiros
11 Pontos de alagamento III
Luzinhas
Lugares
O poeta n.° 2
Lixo extra e ordinário
Ingrato grão
Ré-nuncia
VirtuAll
Refundação do abismo
Movimentos Mínimos para Deslocamentos Curtos (MMDC)
Busca e apreensão
Patologia do trato genital
Japão em 5 Tempos
I – Terremoto
II – Tsunami
III - Radiação
IV - Comboio decasségui
V – Os que sobramos
Pessoa do povo
O alvo é a paz
Família feliz (vende-se)
Brincando de devassa
Brincando de Bukowski
Natal polar
Bulingui
Dia dos Namorados
Ponha um pouco mais de de-li-ca-de-za
Vazamento de vida
Verniz saje
VAI!
Construdestruição
Construdestruição II
Captação híbrida
Isso
Programa de índio (ou Quase um Minifato)
Procura(dor)ia
UFC no metrô
Vida encapsulada
Morte Futebol Clube
Minicontos fraseados IV (Retrospectiva dos 5 Anos)
Minicontos intitulados II (Retrospectiva dos 5 anos)
Minicontos fraseados V (Retrospectiva dos 5 Anos)
Exercício diário de desapego
Minicontos fraseados VI (Retrospectiva dos 5 Anos)
Lixo hospitalar
Texto proibido para quem ainda tem esperança
Órfão II
Cracrolândia espalhada
Titanic mon amour
Buquê SP
Palace 3
Cerveja-almoço
Copromancia
Buquê SP II
Vá-te!
A menor roda gigante do mundo*
Quando a lágrima é maior do que a capacidade
Aí Cai
Paleontólogo amador
Tudo certo
Anonimato dos afetos escondidos
Razão-Ração
Greve no metrô
Ponto cego
Libertadores (Uma final à la timão)
Transformação
Autobiofagia
Ufa(!)nismo
NÃO10000000000000000000000000000000000000000000000000000000001
UHUlysses
Moeda de troca
Ré-curso
E-books, e-readers e e-erros
Ali os alicerces de Alice
Maison Favelas de Fogo
Drible do vácuo
dEXtino
Bora pra Borá
Realize (Móveis Planejados)
Brinquedinho de armar-amar-matar
Finados
VEJA o homem da cabra
Cidade Execução
Reacionariozinho Bonsai
Conflito de gerações
Passar o Passat
(Em)possai!
Fim do mUNDO
Alternativas para escrever um conto de Natal
Ponte de safena
Sem tópico
Horroróscopo
Cricrítica
A fundação da cidade
UFC Romênia
Aluada I
Aluada II
Tá Tu
Passageiro
Desperta!
Ré-cear
Que bom quando você deixa uma boa impressão
Hai quase
Entrevistas de desdesemprego
Aliteração gastronômica
Parto partido
G(PS)
Noticiário
Heróis com heroína
Temporal
Seguro Total Ltda.
A mão do Papa à mão de Dilma
Fragrante
Capitu lar
Microrresumo de um provável miniconto
Casal moderno
Dialética da xenofobia crônica
Votos secretos
Sinsinata
Late, fundiário
Fran dá entrevista
Homem-seta
Teleguiado
A fundação de si
Nota de Repúdio
Facevida
Reinaldo Milhão - Leiloeiro oficial
Eu te amo
Idade das Trevas
O olho ruim da Ritinha
Os postes
Selfie sofre
Seleção natural
Projétil de vida
Eu era o Pateta
Acerto errado
Autógrafo sem data
Com este botão acaba tudo
Linha imaginária VIP
Poses e posses
UTI
Chocolate amargo
Davids da vida
Fiz uma sopinha pra ele comer
Tudo daqui
 

5.9.14

 
Fiz uma sopinha pra ele comer


“Na terça eu fiz uma sopinha pra ele comer.”
“A senhora é a esposa?”
“Sabe quando você junta carne, arroz, feijão?”
“Conforme falaram, o quadro dele é grave.”
“Tudo bem batidinho e temperadinho.”
“A noradrenalina, que regula a pressão, subiu bastante.”
“E aí põe na panela de pressão?”
“Já está há 14 dias entubado.”
“Ele sempre gostou de comida pesada, sabe?”
“A traqueostomia é necessária.”
“Não essas papinhas xexelentas de hospital.”
“Embora o procedimento não apresente maiores riscos, preciso que assine aqui.”
“Sempre foi um homão forte.”
“Aumentamos os sedativos de novo.”
“Tenho certeza que depois que ele comer, melhora.”
“Os próximos dias são vitais.”
“Fiz com todo amor e carinho.”
“Alimentação só parenteral.”

31.8.14

 
Davids da vida


Éramos quatro Davids ali:
um presente na ausência;
outro feitor de portas;
o terceiro abridor delas 
e este que deveria saber dar um fecho nesta história. 

30.8.14

 
Chocolate amargo 

Lá derretem-se por Suflair.
Aqui derretem-nos no sofrer.

13.7.14

 
UTI


“Não tô bem, não. Não posso fa... Tão fazendo um procedimento. Acho que vão, acho que vão me...”
“Viação Catarinense, bom dia.”
“O senhor é parente?”
“Anote o protocolo deste atendimento: 291928742338790797098080.”
“Em qual quarto ele está?”
“Só esses horários, senhor.”
“Não podemos dar nenhuma informação.”
“Passagem cancelada, senhor”.
“Apenas com a equipe médica.”
voequalquercoisaagora.com.br
“Transferimos para a UTI. Solicitamos que o senhor venha ainda hoje.”
Cartão inválido. Tente novamente mais tarde.
Cartão inválido. Tente novamente mais tarde.
Cartão inválido. Tente novamente mais tarde.
Compra confirmada.
“Passageiros do voo 7235: última chamada para...”
“À sua direita, atrás das montanhas, vocês podem ver o Beto Carrero World.”
“Foi divino lá. A 5ª Avenida deles é bem melhor que a nossa.”
“Tripulação: pouso autorizado.”
Bem-vindo a Navegantes.
“MEGA SENA ACUMULADA: 25 MILHÕES!”
“O PT tá mais pra partido terrorista do que de trabalhadores.”
“O senhor é filho dele?”

E aí, como é que ele está?





6.7.14

 
Poses e posses



Pousou o porta-retrato como quem decola a esperança.

19.6.14

 
Linha imaginária VIP


Do lado de cá da cama os sonhos não dormem.

Nem roncam esse ronco ogro que sai da sua boca oca de palavras vazias.

Eles, assim como eu, estão acordados que um dia despertarão sem você.

Sem seu contrapeso cheio de gravidade, seus movimentos que rebatem em mim e seu cheiro que briga com o impotente amaciante do lençol.

Aqui, tão perto e ao mesmo tempo tão anos-luz distante, rezo todos os dias e noites de insônia para que esta linha imaginária VIP que tracei a duras traças invada seu território.

E vá empurrando você para o seu devido lugar.

De onde nunca mais possa tentar querer ousar pôr ordem nas minhas orgias.

As mesmas que começaram medrosamente sem você e hoje ejaculam seus bizarros orgasmos em cima da sua vã e complacente impotência.

E permitem que eu respire e sue e arfe e goze aliviado por estar com milhões de outras que não são você.

Que agora está aí no chão de onde nunca deveria ter saído.

E, pela primeira vez, amarrada e alinhada com esta nossa linha nada imaginária.

31.5.14

 

Com este botão acaba tudo

 
 
Será que ele gostaria deste?

Mas por que eu tô pensando nele?

Ele morreu. Ou devia ter morrido. Pelo menos na minha cabeça.

Esse outro é muito curto. Maldita família conservadora desse coxinha.

Se fosse a dele, não tava nem aí. Até porque o filho da puta mal tinha família. Um verdadeiro fudido. A única coisa que herdou foi milhões de genes da desgraça de um casamento torto.

Por que o amava tanto? Amava?

Detesto este. Muito apertado. Toneladas de sibutramina durante meses e só três quilos de banha perdidos. Seria o comentário geral daquela parentada sem fim.

Vale esse sacrifício todo pra casar com isso???

Se fosse o outro, a esta hora estaríamos bebendo e fazendo piada com os convidados. O infeliz me divertia.

Aquele tá comprido demais. A cauda daria voltas no quarteirão.

E o curtinho que ressalta os peitos?

Haja peito para casar hoje.

Trocentos vestidos e nenhuma certeza.

E ele? Vai pra igreja ver meu casamento?

Dá tempo de experimentar outros?

Ou com este botão acaba tudo?

17.5.14

 
Autógrafo sem data


No final do autógrafo, o velho pede – grita − pro escritor não pôr a data. E sai arrastando a perna bem devagar.

Mas tem que ir mais rápido. Precisa ser rápido. A perna não deixa, não quer, não vai. A rua, reta pra todos, pra ele inclinada e afrontosa. Não tem tempo a perder. “O metrô não fecha à meia-noite?”. São dez e meia ainda. “Tenho tempo de sobra.”

Não. Não tem. Há os malditos degraus. A ida até a bilheteria. A moça que vai perguntar algo que ele não ouve direito. A catraca que nunca libera o cartão de primeira.

“E se eu tivesse furado a fila? Velhos não podem furar a fila? Dizer qualquer merda e querer ser atendido primeiro?” Todos esperam que um velho (“eu?”) faça ou diga alguma merda. Como essa besteira de pedir (“EU GRITEI?”) pra não pôr a data.

Pra que isso? Vai vender o livro depois? Leiloar se o escritor morrer?

“Sim, vou ganhar uma boa grana. Se eu não fosse morrer primeiro.”

Se ele tivesse mais tempo. Se conseguisse sair completo até deste conto mal acabado.

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