3.3.15

 
Insônia



Entregues por um motoboy fantasma, drones sobrevoam minha insônia como discos de pizza gordurosos que pingam óleo fervente na minha cabeça.

À conta, errada como sempre para mais, somam-se pesadelos que nem vieram, mas se fazem presentes na certeza onírica de que o pior piorará.

E não há como e nem porque pagar.

Qual a dívida? Quando a contraí e por que ela tanto me retrai?

Como digerir a angústia que se oferece se impõe! fria na sua quietude ardilosa que vai queimando a bílis que escurece tudo?

Por que mastigar esse destino indeglutível que mais se avoluma quanto mais se apequena?

Quem traçou essas bem estraçalhadas linhas que me estilhaçam e convergem todas para a divergência?

Mal enfronhado num travesseiro que inveja bigorna, tento, tento, tento ainda tentar.

Mas para quê? Pra quem?

Dormir não é a solução: preparadas para cumprir a sua função, novas insônias nunca adormecem em seus postos de batalha.

De tudo, restam só o ronco e o eco oco de quem se julga inocente.

26.2.15

 
Baixa-ajuda


Até acreditava em auto-ajuda.

Mas ela é que não se ajudava.

3.2.15

 


Dicionário alternativo


Gourmet: tudo o que não é gourmet, mas custa três vezes mais.

Concierge: puxa-saco gourmet.

Food truck: Kombi gourmet.

Kombi: o mesmo que food truck, quando ainda não tinham inventado o truque.

Suco detox: o que detona seu bolso e seu paladar.

Finger food: o que você come com dois dedos e depois usa só o do meio pra agradecer.

Selfie: o que sofre.

Pau de selfie: varinha mágica (e trágica) do narcisismo.

Esperança: a última a morrer (dizem os que nem notaram que ela já era zumbi).

Livro de auto-ajuda: o que dá uma alta-ajuda à conta bancária de baixos escritores.

Stand up paddle: comédia em pé na água.

Pavão: Clovis Bornay que reencarnou no corpo errado.

Partido: grupo com um único ideal (partido e repartido com 20% de propina).

Curtir: o que era vida real e hoje é só um clique.

Cantareira: lugar onde nunca chove.

Natal: dia em que se come tudo o que o cartão leva meses pra digerir.

Pré-sal: o petróleo que ainda não tinha sido lavado a jato.

Brasil: um país de todos (contra todos).

28.1.15

 


Formulário de emprego


Nome:
Telefone:
RG:
CPF:
PIS/PASEP:
Tipo sanguíneo, time do coração, cor preferida e inseto que mais combina com você:
Endereço:
Mas que lugarzinho você escolheu pra morar, né?
Idade:
40? Xi...
Título de reservista:
Formação:
Faculdade em que basta jogar o RG no chão pra passar não conta.
Nome da mãe e do pai:
Etelvina e Josiclayson? Sei...
Estado civil:
Filhos:
Obs.: não peça dispensa quando o Etejosyson pegar caxumba.
Idiomas:
Inglês fluente não é só o verbo “tóbi”, viu?
Você se acha o candidato ideal para a vaga?
E não é que se acha mesmo? Faça terapia, querido.
Pontos fortes:
Chupar cana e assobiar feliz pro nosso amado diretor não é um ponto forte; é o básico.
Pontos fracos:
Sim, gaguejar quando nosso gerente zombar de você é falta grave; engula o sapo a seco. E com farinha.
Quantas pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial? RG e CPF de cada uma:
Achou inútil essa pergunta? Espere pra ver seu trabalho aqui.
Por que escolheu esta empresa?
Só nos diga por que, por que, por quê???


27.12.14

 
Cesta de Natal


Cem gramas de esperança podre comprada na correria do fim da feira porque era mais barato.
Cem gramas de grama pra servir de couve gourmet pro burro que nasceu pra pastar na vida.
Sem ganas que nem precisam ser compradas porque não valem nada.
Toneladas de frutas e vidas secas pra serem regadas com o choro moído da discórdia.
Presuntos defumados com a fumaça dos micro-ondas de traficantes do ódio.
Dúzias de falsidade estragada pelos entreabertos tapioéres do desencanto.
Dúzias de falsidade reciclada pelos sorrisos ocres de quem dá tapinhas e facadas nas costas.
Quilos de desejos-de-tudo-de-bom regados ao pegajoso caldo de tudo-de-péssimo.
Tigelas de votos de ano iluminado apagado pela bílis negra do sarcasmo.
Travessas de sonhos recheados com o veneno dos pesadelos amanhecidos.
Forminhas enfeitadas de boas vibrações e adornadas só com péssimas intenções.
Presentes inúteis de quem se faz ausente o tempo todo.
Trocas impossibilitadas por códigos de barras pesadas.
Uma meiga embalagem.



16.12.14

 
Particularidades


Temos algumas, digamos assim, particularidades.
A principal é que adoramos eufemismos.
Se você não sabe o que é eufemismo, vai sentir ainda mais as nossas particularidades.
Mas não ficaria preocupado com isso. Por ora.
Adianta nada se preocupar.
É até curioso, mas temos uma ala de preocupados; fica logo ali nos fundos. Depois dos inconformados.
Eles ganham o mesmo que os outros.
Ganhar é maneira de falar, é claro.
Você já deve estar percebendo que tipo de ganho pode se ter aqui. Se é que não lhe avisaram. Sim, também há a ala dos desavisados.
É a que mais dá pena.
Mas como pena, remorso, dó e solidariedade são sentimentos que raramente temos, nos raros dias em que um sentimento tem a audácia de brotar em nós, sentimos pena nenhuma deles.
Não fique assim. Você também não sentirá.
Sentimentos estavam na primeira cláusula daquelas letrinhas miúdas, lembra?
Ah, não lembra?
Que bom.
Mais um pra ala dos esquecidos.
Que não vão esquecer nunca mais.

1.12.14

 


Transformação na TV


Estivéssemos não viciados, veríamos que o vício que condenamos revela o mau hálito do fétido hábito que temos.

Manteríamos no anonimato esse rosto roto carcomido pelo crack e a beleza de outrora não resplandeceria nossas vilas e vilezas.

Abandonaríamos esse pão e circo em que entramos com o palhaço e o fermento e diminuiríamos o Ibope que nos torna massa podre de manobra.

Concordaríamos que essa drogada jogada na sarjeta agora se faz de rogada e implora perdão pra culpa que é só nossa.

Atiraríamos a primeira pedra em nós mesmos e deixaríamos que cada um encontre a pedra que quiser no meio do caminho.

Aspiraríamos o pó da nossa raiva sem conta-gotas e injetaríamos na veia a velha e vã vergonha alheia.

Transformaríamos primeiro em nós a transformação que ansiamos nessa que antes nem enxergávamos.

Fôssemos menos canibais, saciaríamos nossa nóia e brisaríamos ao ver que não há cachimbo da paz na guerra de audiência que só alicia a nossa desgraça.

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